Em 4 de agosto, a OpenAI ligou o interruptor que boa parte do mercado de marketing esperava e temia ao mesmo tempo: o ChatGPT começou a exibir anúncios pra usuários no Brasil. Não é um teste pequeno, tipo um mercado secundário pra calibrar o produto antes de ir pros grandes. O Brasil entrou como um dos primeiros oito países do mundo a receber o recurso, e a explicação é direta: estamos entre os três maiores mercados do ChatGPT em usuários ativos semanais do planeta, ao lado de Estados Unidos e Índia.
Passei os últimos anos, aqui na Superplural, respondendo à mesma pergunta de clientes de formas diferentes: “isso muda a estratégia de mídia?” Com Google, com Meta, com TikTok, a resposta quase sempre era sim, mas devagar. Com esse anúncio da OpenAI, a resposta é sim, e rápido. Vou explicar o que mudou de fato, por que aconteceu agora, e o que isso significa pra quem faz marketing digital no Brasil a partir de hoje.
O que a OpenAI anunciou, exatamente
O piloto começou de forma gradual, não pra todos os usuários ao mesmo tempo. Os anúncios aparecem abaixo das respostas do ChatGPT, com identificação clara de que são conteúdo patrocinado, separados visualmente do que o modelo gerou. A OpenAI foi explícita num ponto: o anúncio não interfere na resposta em si, ele vem depois, como um elemento à parte.
Quem vê os anúncios: usuários maiores de 18 anos nos planos Free e Go. Quem não vê: assinantes dos planos pagos, Plus, Pro, Business, Enterprise e Education. É o mesmo modelo que Spotify, YouTube e praticamente todo serviço de assinatura já usa há anos: quem paga, não vê anúncio. A diferença é que agora esse modelo chegou pra dentro da ferramenta que virou o principal ponto de entrada de informação de uma fatia crescente da internet.
- Anúncio aparece abaixo da resposta, nunca dentro dela
- Identificação clara como conteúdo patrocinado
- Só usuários dos planos gratuitos (Free e Go), maiores de 18 anos
- Assinantes pagos continuam sem anúncio nenhum
Por que o Brasil, por que agora
A resposta curta é matemática. O ChatGPT tem mais de 900 milhões de usuários ativos por semana no mundo, e menos de 3% deles pagam qualquer assinatura. Isso deixa a OpenAI numa posição parecida com a de qualquer rede social gigante: um produto usado por quase um bilhão de pessoas, sustentado financeiramente por uma fração pequena delas. A publicidade deixa de ser opção e vira necessidade estrutural.
E a pressão financeira é real. Segundo a CNN Brasil, a OpenAI fatura hoje algo em torno de US$ 25 bilhões anualizados, mas projeta prejuízo entre US$ 14 e 30 bilhões só em 2026, dependendo do critério contábil usado. Treinar e rodar modelos de fronteira custa caro, e assinatura sozinha não fecha a conta.
| Métrica | Número |
|---|---|
| Usuários ativos semanais do ChatGPT (global) | +900 milhões |
| Parcela que paga assinatura | menos de 3% |
| Receita anualizada do piloto nos EUA (6 semanas) | US$ 100 milhões |
| Anunciantes participantes do piloto americano | +600 |
| Receita de anúncios projetada pra 2026 | US$ 2,5 bilhões |
| Receita de anúncios projetada até 2030 | US$ 100 bilhões |
| Posição do Brasil no rollout global | 8º país, atrás de EUA, Canadá, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia, Japão e Coreia do Sul |
O piloto americano, iniciado em janeiro, já validou a tese: US$ 100 milhões em receita anualizada em apenas seis semanas, com mais de 600 anunciantes participando, segundo dados publicados pela Exame. O Brasil, com seu volume de usuários, é candidato natural a repetir esse resultado.
Como o formato funciona na prática
Segundo o TecMundo, os anúncios aparecem no meio das interações, quando o usuário está conversando sobre produtos, viagens ou outros tópicos com intenção comercial clara. A OpenAI garante que o anunciante nunca recebe o conteúdo da conversa, o histórico de chat, o que está guardado na memória do usuário, nem dado pessoal identificável (nome, e-mail, IP, localização). O que chega ao anunciante é métrica agregada: visualizações e cliques, o básico de qualquer plataforma de mídia paga.
Um detalhe que interessa direto a quem trabalha com mídia: o piloto já nasceu com grandes grupos de agência dentro, incluindo BETC Havas, Monks, Omnicom, Publicis Groupe e WPP. Ou seja, os holdings gigantes da publicidade global já estão testando esse inventário há meses, enquanto o resto do mercado brasileiro está descobrindo agora que o canal existe.
Como controlar a personalização de anúncios no ChatGPT
Antes de falar de estratégia, vale um parêntese prático. Mesmo no plano gratuito, dá pra reduzir o quanto os anúncios usam do seu histórico pra te segmentar, sem precisar assinar um plano pago. O caminho, segundo levantamento da ALM Corp sobre os controles de anúncio da OpenAI, é o seguinte:
- Acesse as configurações da sua conta no ChatGPT
No aplicativo ou na versão web, entre na área de configurações da conta.
- Encontre a seção de controles de anúncios ou de dados
É onde ficam os toggles relacionados à personalização de publicidade.
- Desative a personalização principal
Isso impede que o sistema use seu histórico de anúncios e perfil de interesses pra segmentar o que aparece.
- Desative também a personalização baseada em conversas
Um segundo controle evita que tópicos de conversas anteriores influenciem os anúncios que você vê.
- Limpe o histórico e o perfil de interesses de anúncios
Nas abas de histórico e interesses, dá pra apagar entradas específicas ou zerar tudo de uma vez.
Vale reforçar: nenhum desses controles remove o anúncio do plano gratuito, eles só reduzem a segmentação. A única forma de usar o ChatGPT sem anúncio nenhum continua sendo assinar um plano pago.
O que isso muda pro marketing digital brasileiro
Aqui entra a parte que mais me interessa, e onde eu discordo de quem está tratando isso como “mais um canal de mídia paga”. Busca no Google historicamente funciona por palavra-chave: você digita o que quer, o sistema casa intenção com anúncio. Rede social funciona por interrupção: você não estava procurando nada, o feed te oferece algo baseado em dado demográfico e comportamental. O ChatGPT é um formato novo, porque a pessoa está no meio de uma conversa real, com contexto acumulado, discutindo uma dúvida, um problema, uma decisão de compra em construção. É o sinal de intenção mais rico que qualquer canal de mídia já teve acesso, porque não é uma palavra isolada, é um raciocínio inteiro sendo formado em tempo real.
Isso muda a pergunta que toda marca precisa se fazer. Não é mais só “estou bem posicionado no Google pra essa palavra-chave”, é “quando alguém pergunta pro ChatGPT sobre o meu setor, meu produto aparece na resposta, mesmo sem pagar nada por isso?”. Já escrevi sobre isso em detalhe no post sobre GEO, o SEO para um mundo onde ninguém mais clica no link: a disputa por visibilidade migrou de “estar na primeira página” pra “ser a fonte que a IA cita ou recomenda”. Agora, com anúncio dentro do próprio chat, essa disputa ganha uma segunda camada, paga, em cima da orgânica. Quem não sabe nem se aparece organicamente vai competir em desvantagem dupla. Se você ainda não checou isso, o guia prático de como monitorar se sua marca é citada pelo ChatGPT e outras IAs é o primeiro passo antes de pensar em qualquer verba paga aqui.
Tem uma leitura mais ampla nisso também, que puxo do filósofo francês Guy Debord e do conceito de sociedade do espetáculo: a ideia de que, no capitalismo avançado, toda relação humana direta tende a ser mediada por uma imagem, uma mercadoria, um consumo. O ChatGPT nasceu com a promessa oposta a isso, um assistente direto, sem ruído comercial, sem a mediação de quem paga mais pra aparecer primeiro. O anúncio dentro da conversa é exatamente esse mecanismo entrando pela porta que faltava fechar. Não é uma crítica moralista, é uma leitura estrutural: todo produto digital de massa, mais cedo ou mais tarde, converte a atenção que acumulou em inventário de mídia. O ChatGPT só demorou menos tempo que o Google e o Facebook pra chegar nesse ponto.
É hype ou é sério?
Eu não gosto de vender pra cliente todo canal novo como se fosse revolução obrigatória, e aqui não vai ser diferente. O piloto ainda é gradual, nem todo usuário Free e Go vê anúncio hoje, e a OpenAI foi clara que vai ajustar o formato conforme o feedback chegar. Não existe ainda painel de compra self-service maduro pro anunciante médio brasileiro, o que hoje limita o acesso principalmente a marcas grandes e às holdings de agência que já estão dentro do piloto global.
Mas o sinal de fundo é sério, e é esse: o ChatGPT deixou de ser só uma ferramenta de produtividade e virou, de forma definitiva, uma plataforma de mídia. Isso muda orçamento, muda o tipo de profissional que uma agência precisa ter no time, e muda a régua de sucesso de quem mede resultado só por clique em anúncio tradicional. A pergunta que fica pra qualquer marca não é se vale a pena testar, é quando começar a testar antes que o CPM suba com a concorrência entrando.
O piloto começou em 4 de agosto de 2026. O Brasil é o oitavo país a receber o recurso, depois de Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia, Japão e Coreia do Sul.
Usuários maiores de 18 anos nos planos gratuitos Free e Go. Assinantes dos planos Plus, Pro, Business, Enterprise e Education não veem anúncio nenhum.
Não completamente no plano gratuito. Dá pra reduzir a personalização desativando os controles de anúncio nas configurações da conta, mas o anúncio em si só some assinando um plano pago.
Não. A OpenAI afirma que anunciantes nunca recebem o conteúdo das conversas, histórico de chat, dados de memória ou informação pessoal identificável. Eles recebem apenas métricas agregadas, como visualizações e cliques.
A projeção é de US$ 2,5 bilhões em receita de anúncios em 2026, chegando a US$ 100 bilhões até 2030, segundo dados divulgados pela empresa.
A gente vai acompanhar de perto como esse formato evolui no Brasil nas próximas semanas, inclusive testando na prática assim que o acesso abrir pra além dos grandes holdings. Se você quer entender onde sua marca está hoje nesse novo tipo de visibilidade, antes mesmo de pensar em verba paga dentro do ChatGPT, chama a gente pra conversar.


